Histórias e origens da música que encanta o Brasil e o mundo há mais de 60 anos

Se você pudesse chutar qual a música brasileira mais conhecida no mundo e uma das cinco músicas mais tocadas de todos os tempos em todo o mundo, qual música você chutaria que é essa? A grande maioria dos brasileiros com alguma idade acertariam que estamos falando de Garota de Ipanema, uma das músicas mais determinantes para a cultura nacional e, principalmente, para a imagem internacional do estrangeiro sobre o brasileiro e o Rio de Janeiro.

As crônicas dizem que no início dos anos 1960 uma garota de 18 anos muito fofa passeava pelas ruas do Rio. Essa morena esguia de grandes olhos verdes se chamava Heloísa Eneida Menezes Paes Pinto (conhecida como Helô Pinheiro) e todos os dias passava pelo Café Veloso a caminho da praia de Ipanema, atraindo os paroquianos, entre eles Vinicius de Moraes e Antônio Carlos.

Enquanto Vinicius de Moraes e Tom Jobim estavam durante uma tarde ensolarada curtindo a vida e tomando uma cerveja no bar Veloso – chamado hoje Garota de Ipanema -, situado na esquina da rua Montenegro em Ipanema, futuramente rebatizada de Rua Vinicius de Moraes, eles viram uma garota passar e se impressionaram com ela. Era Helô Pinheiro, hoje com mais de 75 anos, à época no auge de sua idade, com seu biquini gingando a caminho do mar. Helô seria a musa inspiradora da canção que Vinicius e Tom comporiam proximamente.

O paradigma da mulher carioca

Era 1962, Jobim com trinta e cinco anos e Vinicius, com cinquenta, decidiu que Hélo merecia uma canção. Algum tempo depois, Vinicius confessou que a garota de Ipanema “era o paradigma do tipo carioca; uma mulher dourada, um misto de flor e sereia, cheia de luz e graça mas cuja visão também é triste, porque carrega consigo, no caminho para o mar, a sensação do que se passa, a beleza que não é nossa, é um presente da vida em seu belo e melancólico fluxo e refluxo.”

Originalmente, a música chamava-se ‘Menina que passa’ e incluía uma comédia musical intitulada Dirigível, uma versão até foi gravada por Os Cariocas e João Gilberto, mas o primeiro a gravar a música foi a cantora Pery Ribeiro em 1963. Vinicius tentou desenvolver diversas letras, até que chegou à versão que conhecemos e apresentou a música no show Encontro, com João Gilberto, Tom Jobim, Vinicius de Moraes, e Os Cariocas. Eles nem imaginavam onde chegaria a composição despretensiosa apresentada naquele dia.

A música começou a tornar-se um ícone da bossa nova, um sucesso imediato apresentando a praia de Ipanema para todo o país e o mundo, crescendo muito rapidamente em fama e popularidade. Em 1963, saíram as três primeiras gravações, feitas por Pery Ribeiro, Os Cariocas e pelo Tamba Trio. Em maio de 1963, primeira com Tom Jobim para seu disco solo de estreia nos Estados Unidos.

Mais sucesso, mais gravações

Nesse 1963 o tema ganharia maior relevância quando Gilberto, junto com sua esposa Astrud e o saxofonista Stan Getz, o incluíram com o título de ‘Garota de Ipanema’ no álbum “Getz-Gilberto” (1964), gravado no Estados Unidos., João Gilberto cantou em português, a esposa em inglês e até o próprio Jobim participaram dessa gravação que foi um verdadeiro sucesso nos Estados Unidos: 96 semanas consecutivas no ranking da revista Billboard, quatro Grammys (álbum do ano, single do ano, melhor solista de jazz e melhor gravação). Os americanos ficaram tão encantados com Astrud que o cantor deixou Gilberto, mudou-se para Nova York e se tornou um cantor de prestígio.

Até o final de 1963, foram lançadas 18 outras gravações da música no Brasil e nos Estados Unidos, e isso fez com que a Garota de Ipanema se tornasse um sucesso mundial muito rapidamente. A mulher de João Gilberto foi a pessoa que cantou o single de 1963 The Girl From Ipanema, chegando ao topo das listas em 1964 e 1965, inclusive sendo premiada no Grammy, sendo a primeira música de Jazz e com artistas não-americanos a vencer na categoria em questão. Quando Vinicius e Jobim revelaram a identidade da garota em 1966, ela virou celebridade. Ela anunciou, modelou, escreveu artigos de jornal e estrelou em três novelas. Fiz uma amizade entre os compositores, o próprio Antonio Carlos Jobim foi padrinho quando a garota de Ipanema se casou com o empresário Fernando Mendes Pinheiro. Mas nem tudo eram flores. Depois da morte de Vinicius e Jobim, Hêlo recebeu uma ação judicial dos filhos do primeiro e da viúva do segundo por usar comercialmente seu apelido, o de ‘garota de Ipanema’.

A cultura brasileira e a Garota de Ipanema

A canção virou um marco cultural para o Brasil, e graças à briga que Tom Jobim comprou com os produtores para não permitir que transformassem sua canção em “Girl from South Beach”, “Girl from Malibu”, ou qualquer outra alteração do tipo. A música deveria necessariamente remeter ao local em que ela foi criada, e graças a isso, o imaginário dos estrangeiros sobre o Brasil tem essa música de fundo e certamente uma praia e uma mulher linda no meio. Pessoas de todos os lugares da América e da Europa sabiam cantar “Garota de Ipanema”, em inglês e em português.

E pode ser mesmo que a origem da garota nunca tenha mudado, mas logo em 1964 a Garota de Ipanema já havia virado Garoto de Ipanema na voz de Peggy Lee, a famosa cantora de Jazz americana que gravou a famosa canção “The Boy From Ipanema”, sendo seguida por intérpretes super significativas como Ella Fitzgerald e até Diana Krall, já falando sobre mais recentemente.

Acredite se quiser: Garota de Ipanema se tornou assim a segunda canção mais regravada do mundo, atrás apenas de Yesterday, dos Beatles. É mole? Vinicius e Tom com certeza não tinham nem um centésimo dessas pretensões ao criar esta música, e a musa inspiradora da canção deve ser no mínimo muito orgulhosa de todos os desdobramentos que gerou para os autores da música e para seu país em específico.